“Annie teve a capacidade de renunciar ao conforto. Quantos de nós seríamos capazes de o fazer?”
Helena Pimenta, uma das mulheres mais influentes do teatro espanhol contemporâneo, é a encenadora de “A Filha Rebelde”. Aqui, fala-nos de Annie da Silva Pais e da relação de trabalho extraordinária que tem tido com os actores portugueses.
Entrevista conduzida por A. Ribeiro dos Santos
Helena Pimenta é licenciada em filologia inglesa e francesa, mas é conhecida por ser uma das grandes encenadoras do momento, em Espanha. Chegou a exercer alguma profissão relacionada com a sua formação?
Helena Pimenta – Sim. Fui professora. Aliás, sou funcionária do Estado e foi durante o exercício da docência que descobri que queria fazer teatro profissionalmente. Comecei a fazer teatro com os alunos, mas a certa altura percebi que ia mergulhar de cabeça na aventura do teatro. De resto, já tinha feito teatro na faculdade, como actriz...
Mas não seguiu esse caminho... Preferiu ser encenadora?
Sou muito racional. Gosto da sistematização, gosto da ordem. Não, não era como actriz que eu queria estar no teatro... Em 1986, profissionalizei-me, mas desde 78 que me estava a formar, que tinha aulas com diversos mestres, que fazia viagens...
De que mestres estamos a falar?
Em Espanha, o Guillermo Heras, o Angel Facio, o Ernesto Caballero... No estrangeiro, estive próxima das experiências teatrais do Norte da Europa, na Suécia, na Dinamarca. Tive alguns mestres russos e, é evidente, vou ter de falar de José Sanchis Sinisterra, um homem excepcional, uma das pessoas que me ajudou a unificar todos os conhecimentos. Mas no meu trabalho há outras influências: a dança contemporânea, por exemplo, e o facto de me rodear de especialistas nas áreas da voz ou da cenografia… Há 20 anos que trabalho com o cenógrafo Jose Tomé, por exemplo, pois concebo o espectáculo como algo total, como uma experiência múltipla.
Em 1986, quando decide dedicar-se apenas ao teatro, funda a sua própria companhia…
Sim. Tinha uma outra companhia antes, semi-profissional, e com parte dessas pessoas fundei o UR Teatro, a minha companhia actual, com a qual tenho viajado por todo o Mundo. É um grupo que tento que seja o mais estável possível, para poder fazer um trabalho consistente e poder afirmar uma linguagem própria. Aliás, acredito que, neste momento, o UR já tem uma marca que o espectador identifica.
Como directora tem feito Voltaire, Shakespeare, Valle-Inclàn, Lope de Vega, Cervantes… Tudo grandes clássicos. Como se justifica esta preferência?
Acho que a minha formação académica leva-me a uma relação muito próxima, muito forte com os clássicos. E, de certa forma, também sinto que é um pouco a minha obrigação: fazer com que os jovens penetrem nesse universo maravilhoso dos grandes autores, permitir ao público em geral sentir a emoção extraordinária que eles proporcionam. E acho que sou bem sucedida nisso. O primeiro Shakespeare que fiz, por exemplo, teve 400 mil espectadores, o que é muito, em teatro. Acho que encontrámos a chave certa para entrar naquela fechadura: se, por um lado, há um grande respeito pelo texto, por outro há uma grande liberdade em abordá-lo e em levá-lo até ao espectador. Decidi continuar a fazer Shakespeare e desde então nunca mais parei.
E assim se chega a ser uma especialista de Shakespeare…
Parece que sim. (Risos) Bom... digamos que sou uma frequentadora habitual da obra de Shakespeare, pois já levo vinte anos de relação com ele. Mas Shakespeare é inesgotável e ser-se especialista em Shakespeare é quase impossível.
Vai fazer mais Shakespeare em breve?
Sim, sim. No fim do ano, talvez faça “Os Fidalgos de Verona”.
E o “Hamlet”?
Ainda não. O “Hamlet” e o “Rei Lear” não são as peças que me inquietem neste momento da minha vida. Ainda não chegou o momento... São peças, são temáticas que ainda não me tocam.
Os textos contemporâneos é que não abundam no seu currículo…
Sim. Fiz Enzo Corman, José Martín Recuerda, Juan Mayorga… O Juan (Mayorga) escreveu, para a UR, “El Chico de la Ultima Fila”, que é uma peça sobre educação, sobre a relação entre professores e alunos, entre pais e educadores, e que está a ter um sucesso extraordinário. O Juan está num momento criativo excepcional. Entendemo-nos tão bem que, nos próximos dois anos, para além de mais uma peça de Shakespeare, tenciono encenar outra peça do Juan. A segunda de uma trilogia sobre a educação, que é um tema muito mal tratado em Espanha, sobretudo no teatro. O teatro tem a obrigação de tratar temas actuais, de uma forma que corresponda à sensibilidade artística contemporânea, proporcionando ao público uma experiência de transcendência e de elevação.
Os autores espanhóis actuais estão sintonizados com essa necessidade?
Sim. Sinisterra foi o percursor dessa era, foi um dos dramaturgos que mais se empenhou para que o teatro tratasse os temas contemporâneos, sempre com inteligência, humor, ironia… Mayorga é aluno dele. Aliás, há toda uma geração de novos dramaturgos espanhóis que foram formados por José Sanchis Sinisterra. Há a Yolanda Pallín, o José Ramon Fernandez… Com Pallín fiz três espectáculos, por exemplo, duas adaptações – de Cervantes e de Shakespeare – e um musical, uma zarzuela. Quando trabalho com os novos dramaturgos, eles envolvem-se em todo o trabalho. Não apenas no textual. E são pessoas habilitadas a fazê-lo, têm muita preparação, vêm com uma visão actual e sólida do teatro. A escola de arte dramática é muito forte em Espanha. Há muita gente a escrever, gente que não se empenha em defender o texto rigidamente, mas que está disponível para fazer as adaptações que forem necessárias.
Como é que a Helena Pimenta chega ao Teatro Nacional D. Maria II, para dirigir “A Filha Rebelde”?
Bom, conheço o trabalho de José Manuel Castanheira há muito tempo e, numa das suas viagens a Espanha, ele falou-me deste projecto, em nome da direcção do TNDM II. Tinha interesse em que eu dirigisse este espectáculo. Dá-se a circunstância de eu ser de origem portuguesa: o meu pai é português. Suponho que ele achou que este texto seria indicado para alguém que, como eu, está vinculado a Portugal. Alguém que tem a minha experiência como encenadora... Ele conhece bem o meu trabalho. As primeiras conversas que tive com ele já datam de há mais de ano e meio. Assim que foi nomeado para o Teatro Nacional, disse-me logo para pôr este espectáculo na minha agenda.
Como é que reagiu ao convite?
Assustou-me um pouco, como é evidente. Perguntei-me: será que posso trazer algo de novo ao projecto? Mas comprometi-me, e agora estou contente por ter aceitado este desafio. O trabalho tem-me posto em contacto com uma parte desconhecida de mim mesma. A cultura portuguesa faz parte de mim, mas ter de trabalhar com isso, é uma emoção. E a temática da obra é muito intensa...
O que pensa de Annie Silva Pais?
Fiz uma reflexão aturada sobre a peça. Inicialmente, tive medo de cair no romance cor-de-rosa, porque Annie é uma personagem muito emotiva e há uma série de acontecimentos que nos poderiam conduzir por um caminho de ligeireza... Tentei analisar a relação de Annie com a Revolução Cubana e procurar perceber o que leva uma pessoa a romper com uma fase da sua vida muito cómoda, em que tem tudo, para se envolver no sonho de uma sociedade melhor. Foi, afinal, a utopia dos anos 60: os homens acreditaram que podiam construir um mundo melhor. Foi um sacrifício enorme: Annie teve a capacidade de renunciar ao conforto. Quantos de nós seríamos capazes de o fazer? Hoje, temos a consciência de que somos todos muito defeituosos... A viagem de Annie foi dolorosa, ela teve alegrias e tristezas, algumas decepções, certamente, mas levou a sua decisão até ao fim. Uma história de vida assim pode facilmente cair no estereótipo e esse era o meu receio. Mas acho que encontrámos a solução para o problema e que construímos um trabalho que, sem perder as qualidades românticas, é humano, frágil, sensível e delicado. E que viaja através da utopia cubana desses anos. É importante rever essa capacidade de lutar.
E está a gostar de trabalhar com os actores portugueses? Não os conhecia?
Conhecia-os de espectáculos que vi quando passei por Lisboa, mas nunca tinha trabalhado com actores portugueses. Estou muito satisfeita: desde o primeiro dia só tenho recebido generosidade, concentração e respeito. E acho que isso se vai ver notar no espectáculo. Houve momentos, durante os ensaios, de grande emoção, em que nos dissemos: como o teatro é mágico! Como é que se pode criar estes momentos de empatia tão forte entre as pessoas? Estes actores têm uma sensibilidade fora do comum e compreenderam rapidamente que estávamos à procura de uma poética comum. No vigésimo ensaio, já o tínhamos conseguido. É único! Tenho vontade de os levar a todos para minha casa!
Está com receio das reacções do público português?
Nada. Claro que respeito o público. Todo ele. Mas quando estou confiante de que estou no caminho certo… Se eu não tivesse sido capaz de me envolver com a obra, de me identificar com o projecto do teatro, com as equipas e com os actores ficaria preocupada. O que sinto é o peso da responsabilidade e alguma inquietude. Isso sim. Mas isso até é positivo, pois obriga-me a lutar até ao último dia. Também ajuda o facto de ter visto vários espectáculos em Lisboa... Percebi que os espectadores portugueses são pessoas sensíveis ao teatro. Portanto, não tenho nada para recear.