Fachada principal do TNDM II Blackbird Rei Édipo Robinson Crusoe
Produções
2005
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Berenice
Sala Garrett
31 de Mai a 11 de Jun 2005

no Teatro Nacional de São João, Porto
de 31 de Maio a 11 de Junho 2005

Produção TNDM II
- NOVA CRIAÇÃO

ESTREOU NA SALA GARRETT em 21 de Abril 2005

Berenice… esta majestosa tristeza!

O conflito entre o dever e a paixão, o amor sacrificado à razão de Estado: de que forma estas situações tocam os nossos espíritos contemporâneos?
O que Berenice nos dá, fundamentalmente, é a eterna história de um amor infeliz, da separação dos amantes, do destino insensível, de um sacrifício sublime, no qual a grandeza não serve de consolo àqueles que o aceitam.
A história de Tito e Berenice é também um pouco a de Dido e Eneias, de Tristão e Isolda, de Rodrigo e Chimena.
O espectador contemporâneo não pode deixar de admirar o "exercício" realizado por Racine: a simplicidade da acção, que vai quase até ao despojamento e que faz de Berenice uma verdadeira "tragédia sobre quase nada"… Mas não é esta mesma sobriedade que permite escutar de uma forma subliminal todo o canto do amor e do desespero?
Uma acção simples, sustentada na grandeza dos sentimentos, na elegância da expressão, na violência das paixões, na espera da palavra, faz com que esta obra se apresente como uma inquietação surda, uma tragédia de portas fechadas na qual correm lágrimas e não sangue e em que o verso de Racine nos surge – na bela definição de Grüber – como um sopro sobre uma ferida.

O regresso ao Porto e, mais uma vez ao TNSJ que – agora – acolhe o TNDM II para apresentar esta nova criação do grande clássico de Racine, Berenice, não pode deixar de ser mais um grande momento de regozijo, sobretudo pelo que significa na continuação do intercâmbio inter-teatros.
É natural que teatros nacionais sejam espaços privilegiados para partilha e permuta de experiências de criação com autores, actores e companhias. Tem sido esta a prática do TNDM II ao co-produzir com outras companhias, organizações ou teatros – O Bando, Escola de Mulheres, Cão Danado, Artistas Unidos, Cultural Kids, Boas Raparigas, Festival Temps d’ Images ou, entre outros, o próprio TNSJ – algumas das suas novas criações.

Sobre a Berenice de Racine ainda não foi tudo dito. São poucos os textos e autores que se mantêm “novos” com o passar dos anos. Textos desta natureza provam o logro em que a velocidade da vida quotidiana nos fez cair, reiterando que a novidade não se constrói “a partir do zero”, antes se cria e estimula com o conhecimento profundo das obras, acontecimentos e autores de referência.
Lembro-me de ter lido as palavras de um ficcionista que considerava nada ter a acrescentar às epopeias de Homero mas que, mesmo assim, continuava a tentar – e tentar correspondia a escrever sobre o mesmo que Homero tinha escrito, só que dando-lhe outro contexto. Se o resultado fosse feliz, sentiria que tinha feito uma “Obra Nova”. Foi com este espírito que produzimos Berenice: ao apresentarmos uma “Obra Clássica” através de uma “Nova Obra”, sentimos que estamos simultaneamente a divulgar cultura e a acrescentar cultura. Encare-se esta consciência como uma homenagem à obra e ao autor, já que do “velho se faz novo” apenas quando se admira… O próprio texto de Racine, como aliás toda a literatura, é disto exemplo – o impacto de um texto não depende apenas da sua inovação, mas também de questões relacionadas com a emoção do “reconhecimento”: reformulam-se tensões de sempre, inquietações, afectos, razões de estado e de honra, lutas internas intemporais…
Esta encenação, com o seu elenco, realização plástica e música original, constitui uma oportunidade única para o espectador contactar com um texto clássico e apreciar a sua encenação com a dimensão contemporânea e a “respiração” que as salas do TNDM II e do TNSJ naturalmente proporcionam, em total sintonia com a imponência do texto e a excelência e mestria da tradução verdadeiramente literária e simultaneamente inovadora e respeitadora do original.

António Lagarto


FICHA TÉCNICA

ENCENAÇÃO: CARLOS PIMENTA
CENÁRIO: JOÃO MENDES RIBEIRO
FIGURINOS: ANTÓNIO LAGARTO
MÚSICA: MÁRIO LAGINHA
DESENHO DE LUZ: DANIEL WORM D'ASSUMPÇÃO
VÍDEO: ALEXANDRE AZINHEIRA
DESENHO DE SOM: HUGO REIS
VOZ E ELOCUÇÃO: LUÍS MADUREIRA


COM
JOÃO GROSSO
BEATRIZ BATARDA
JOSÉ AIROSA
MIGUEL LOUREIRO
JOSÉ NEVES
TERESA SOBRAL
PAULO LAGE


 

 

 

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