Entrevista a Gisella Mendoza
Baseado na metodologia desenvolvida por Augusto Boal, no Brasil, em meados da década de 60, o Teatro do Oprimido está hoje presente em mais de 70 países, entre os quais Portugal. Gisella Mendoza fala sobre esta associação sem fins lucrativos que envolve actores e público num processo de reflexão mútua. O teatro é espaço de participação, de interacção e de discussão de ideias. R2, encenado por Nuno Cardoso, é o mais recente exercício que envolve vários jovens de bairros ditos problemáticos em Lisboa.
Entrevista de Ricardo Paulouro
O que é o Grupo de Teatro do Oprimido?
O Grupo de Teatro do Oprimido de Lisboa (GTO Lisboa) é uma associação sem fins lucrativos empenhada em estimular a participação activa e consciente dos cidadãos na construção da sociedade. O GTO desenvolve as suas actividades a dois níveis: ao nível comunitário, o GTO trabalha como multiplicador da metodologia do Teatro do Oprimido, formando e acompanhando grupos de Teatro Fórum em bairros problemáticos de Lisboa e Amadora. Ao nível da sociedade portuguesa em geral, o GTO existe como grupo de teatro, o qual recorrendo ao teatro do oprimido cria espaços de diálogo para a sociedade lisboeta/portuguesa procurar em conjunto possíveis soluções aos problemas apresentados. Na sua última criação “Berimbú? Berimbé? Ou que raio isso é!” o GTO Lisboa discute e questiona o papel da sociedade de acolhimento na aceitação e integração dos imigrantes. O nosso objectivo ao questionar, tanto a sociedade portuguesa como as comunidades imigrantes, nas suas atitudes perante o que designamos de “o outro”, é revelar de forma prática os medos de aceitá-lo e de “perder o que é meu”. Actualmente o GTO desenvolve as suas actividades teatrais no Teatro Cinearte “A Barraca”, com quem estabelecemos em 2005 um protocolo de cooperação.
Que tipo de jovens estão envolvidos neste projecto?
A metodologia do teatro do oprimido é aberta para todos aqueles que acreditam que um outro mundo é possível. Através do teatro, homens e mulheres, novos e velhos transformam a sociedade! No caso específico do exercício teatral R2 realizado com o Nuno Cardoso, os jovens do elenco são moradores dos bairros onde o GTO tem actividade e os quais fazem parte dos grupos de teatro fórum criados nestes bairros ao longo dos últimos dois anos. São jovens portugueses, portugueses descendentes de africanos, portugueses com cartão de residência, portugueses com cédula pessoal, portugueses sem bilhete de identidade. São jovens que vivem em Portugal e que fazem parte desta sociedade.
Qual é a metodologia utilizada pelo Grupo de Teatro do Oprimido?
Utilizamos a metodologia do Teatro do Oprimido (TO) – o que dá origem ao nome do grupo. Especificamente trabalhamos a técnica do Teatro Fórum (TF). O Teatro Fórum consiste na encenação de temas propostos pelos próprios elementos de um grupo ou comunidade. Nessas encenações – baseadas em factos reais – a história que se apresenta contém um conflito por resolver (com um ou vários momentos de tensão). No fim da apresentação teatral, o público – através da discussão da história e assumindo o papel da personagem oprimida, ou das aliadas, em cena – propõem diferentes alternativas de modo a encontrar soluções para o conflito apresentado. Esta metodologia foi desenvolvida pelo dramaturgo Augusto Boal, em meados da década de 60 e é hoje praticada em mais de 70 países.
Quais são os principais temas privilegiados para representação?
Todas as criações e trabalho desenvolvido pelos grupos de Teatro Fórum reflectem as inquietações, necessidades, urgências e problemáticas sentidas pelos participantes. São os grupos que definem os temas a serem tratados, não há temas privilegiados, não existe uma escala de opressões! Como exemplo desta metodologia, o grupo de T.F. do Alto da Cova da Moura “Os DR” têm mantido uma actividade constante com diversas apresentações e montagens de peças. Que Género de Vida? é o título do seu último trabalho levado à cena nos meses de Abril a Junho. Nesta sua última criação “Os DR” apresentaram a continuação da temática da discriminação dos moradores do seu bairro (anteriormente abordada na peça Diz Crime Não) e desenvolveram uma nova temática: a igualdade de oportunidades e o género – Homem vs. Mulher – com principal incidência no papel social atribuído à Mulher. No caso do grupo de T.F. do Zambujal “Os Keritearte” a preocupação exposta na sua criação Podia ser contigo também passa pela estigmatização das pessoas moradoras do bairro.
Qual é o papel do público e como define a sua participação em cada espectáculo?
Ao contrário do teatro clássico, nas apresentações de Teatro Fórum o público tem um papel activo de análise e intervenção. Isto porque, o Teatro Fórum não consiste apenas na apresentação de um espectáculo, pelo contrário tem o objectivo principal de confluir toda a apresentação no momento que lhe dá o nome – o fórum. É este o momento crucial de toda a apresentação, o momento onde, através da experimentação em cena, o público debate e constrói respostas para os problemas apresentados anteriormente pelos actores em cena.
Em que locais desenvolvem actualmente as vossas actividades?
Ao nível comunitário actualmente o GTO Lisboa trabalha na Quinta das Laranjeiras e Casal dos Machados (Lisboa), Alto da Cova da Moura e Zambujal (Amadora). Com dois núcleos de Teatro Fórum fortificados o grupo “Os DR” do Alto da Cova da Moura e os “Keriteatre” do Zambujal. Como grupo de teatro, o GTO desenvolve as suas peças em Lisboa procurando sempre possibilidades para levá-las ao todo o país.
Para além da criação e apresentação de peças que outras actividades fazem parte do GTO?
Quer no que respeita a um trabalho dirigido à sociedade civil de forma geral, como no trabalho de âmbito comunitário e local, o GTO Lisboa empenha-se na divulgação e formação de públicos em Teatro do Oprimido. Para além disso, o GTO participa, em parceria com outras entidades, em diversos projectos, dos quais se destaca o trabalho junto de mulheres imigrantes empregadas domésticas – um trabalho de auto-valorização, auto-representação e capacitação individual e colectiva destas pessoas.
Qual a importância, na sua opinião, de um projecto como "R2", num Teatro Nacional?
Para os jovens esta tem sido uma experiência enriquecedora no seu percurso de crescimento, não só pelo que têm aprendido, mas também pelo reconhecimento que sentem dentro da sua comunidade por estarem envolvidos nesta actividade. A sua participação no R2 provocou a descoberta de novas opções profissionais antes ausentes no seu leque de escolhas e reforçou o processo de construção das suas identidades. O TNDM II, com este projecto, democratiza os meios de produção cultural quer enquanto a abertura de um espaço geralmente destinado apenas a profissionais do teatro, quer como forma de acesso a pessoas à produção cultural. Abrindo as suas portas a esta experiência, o TNDMII aproxima também públicos de realidades diferentes todos eles fundamentais na construção e promoção da pluralidade cultural e social da cidade.