“Interessam-me os textos que me digam alguma coisa sobre mim próprio”
O encenador do Porto está em Lisboa a montar “Ricardo II” de William Shakespeare. Pretexto para uma conversa sobre métodos de trabalho de um criador em ascensão no panorama teatral português.
Texto de A. Ribeiro dos Santos
Em que circunstâncias foi convidado trabalhar para o Teatro Nacional D. Maria II?
Sensivelmente em Março do ano passado, quando estava a preparar o “Plasticina” no Teatro Nacional S. João, recebi um convite da direcção deste teatro: pediram-me que apresentasse um projecto. Eu estava há muito tempo com vontade de fazer o “Ricardo II” do Shakespeare. Propus o projecto e foi aceite.
Alguma razão em especial para querer fazer o “Ricardo II”?
Era a peça que me interessava, e por várias razões. Primeiro porque reflecte sobre uma dupla condição do indivíduo, expressa na figura do rei. Por um lado há o homem, privado, por outro, o ser público, investido do poder. Isto levanta questões éticas, morais, no indivíduo enquanto ser actuante. Depois, o núcleo da história é uma transferência de poder: a substituição, no trono, de Ricardo por Henrique. Uma sucessão que não é directa, mas que implica uma deposição. Ora o poder, os mecanismos do poder fascinam-me, enquanto tema de reflexão. A maneira como as pessoas exercem o poder e a forma como reagem aqueles sobre quem ele é exercido interessa-me e acho que é uma questão sobre a qual não reflectimos o suficiente, em democracia. Enquanto cidadão, tenho muitas vezes a sensação de que estamos distantes em relação ao sistema que rege a sociedade. Como se fosse algo sobre o qual não nos competisse opiniar... Ora isso é um paradoxo, pois este é um sistema feito e pensado para a participação de todos os cidadãos.
Como encenador, esta é a primeira vez que leva à cena uma peça de Shakespeare. Encara isso como um momento fundamental no seu percurso?
Não. Está na moda encarar-se Shakespeare como um rito de passagem. Para mim, não é. Gosto deste texto e sempre quis abordar a obra de Shakespeare começando por “Ricardo II”. Interessam-me os textos que me digam alguma coisa sobre mim próprio, neste momento, porque só posso criar a partir daquilo que sou. Ao ser afectado pelo texto misturo-me com ele mas, de certa forma, estou a dar a minha opinião. Isto não significa de modo algum secundarizar o texto, mas acontece inevitavelmente. O meu autor favorito sempre foi o Ésquilo. Gosto dos três trágicos e das tragédias gregas. É a elas que volto sempre, como leitor, como actor e como encenador.
O seu projecto implica duas versões diferentes do “Ricardo II”…
Vou fazer o “Ricardo II” e depois um trabalho sobre “Ricardo II”, o “R2”. O primeiro espectáculo é um trabalho com actores profissionais e com o texto integral, com alguns cortes, mas coisas mínimas. Partes informativas que radicam na forma como o teatro isabelino era apresentado ao público e das quais eu não preciso. E não sou purista ao ponto de as manter… O outro é feito com pessoas de bairros.
Como foram os ensaios do “Ricardo II”?
Tivemos um mês de dramaturgia, de trabalho de texto, de definição das linhas de força que nos interessa sublinhar na peça. Depois, procurámos consolidar esse trabalho numa linha de espectáculo.
Faz habitualmente aquilo a que se chama trabalho de mesa?
Sim, mas não numa mesa. Demora geralmente um mês: durante um mês, estamos a ler e a improvisar. A fazer estudos sobre o texto, a procurar criar uma simbiose entre a poética do texto e o nosso imaginário enquanto criador. Às vezes resulta e outras é um grande falhanço. Por vezes o falhanço torna-se evidente logo na fase da dramaturgia, outras vezes só damos por ele quando o público começa a ver o espectáculo e não gosta.
Interfere muito com o trabalho de tradução?
Sim. De várias maneiras. Não sou tradutor, não tenho um conhecimento profundo da língua, mas transporto uma ideia que é anterior à tradução… Enfim, pode dizer-se que colaboro com o tradutor. Como sou actor, assisto-o, dizendo o texto em voz alta, aproximando-o ao ritmo que pretendo imprimir à actuação e à ideia com a qual quero ouvir o texto. Claro que tudo isto é um pouco falacioso: quando os actores entram no processo, trazem consigo outros ritmos e outras ideias e as coisas poderão mudar completamente.
Normalmente, de quanto tempo precisa para ensaiar, depois desse mês de trabalho de mesa?
O trabalho continua até ao fim. Até depois da estreia. O que vou dizer talvez pareça paradoxal, mas não há aqui a procura de resultados: é um processo, um questionamento... Daí, também, o risco de falhar. Nunca dou um espectáculo por terminado.
Ao fim do mês de trabalho de mesa os actores já sabem o texto de cor?
Não. Ainda não começaram a decorar texto. O que se segue é o esforço para traduzir as ideias, as imagens e as energias em formas legíveis em palco. Transportar para a cena aquilo que temos como ideia de espectáculo.
Começa a desenhar os movimentos no espaço, a fazer marcações?
Não faço propriamente marcações, mas, sim, começo a conceber as coisas no espaço. A fazer estudos de cenas, de actos, que levam ao estudo da peça como um todo e, finalmente, ao estudo do espectáculo. É um processo lento… Infelizmente, vivemos numa lógica de resultado, em que somos obrigados a apresentar o espectáculo ao fim de um, dois ou três meses.
Não é o processo ideal?
Não há outro. Não é o meu sonho, efectivamente, mas os espectadores não têm culpa disso e temos de lhes mostrar algo.
Ajuda os actores a construírem as personagens?
Não trabalho personagens. O que me interessa no trabalho do actor é que ele transporte uma ideia sobre aquilo que diz. E que essa ideia seja essencial, ao ponto de justificar o texto. Obviamente, importa que o diga bem e que extraia dele o que é importante em termos de corpo, voz, imaginação.
Mas o Shakespeare tem personagens bastante complexas…
Dizer que não trabalho personagens é, talvez, excessivo. O que peço a um actor não é tanto que desenhe a personagem, mas que a interprete. Que me dê a sua visão sobre o que está escrito, e que descubra em si próprio a pulsão que melhor combina com a da personagem. Finalmente, peço-lhe que se integre no grupo que fará a síntese daquilo que entendemos do texto.
Foi importante ter sido actor para o exercício da encenação?
Muito. Há coisas que só um actor percebe. Às vezes, o encenador está a dar indicações ao actor e fica irritado porque ele não consegue fazer algo que, para quem está sentado numa cadeira, parece óbvia. Mas não é. O actor tem – todos os dias, a todo o instante, quer em ensaios quer em espectáculos – o corpo em risco. O corpo enquanto totalidade. Quando é sincero, claro, quando trabalha honestamente. E isso levanta bloqueios, questões de foco muito complexas. Quando estamos sentados, o alvo é tão nítido… O meu trabalho como actor faz-me ter consciência disso e o meu grande desafio é tentar conseguir um veio de comunicação com os actores. Conseguir criar um fluxo e refluxo de ideias no trabalho. Embora esse objectivo me esteja um bocadinho vedado à partida, uma vez que faço um projecto aqui e outro ali e estou sempre a encontrar pessoas novas.
Seria desejável, para si, ter uma companhia com um elenco fixo?
Acho que uma pessoa não deve trabalhar sempre com as mesmas pessoas, mas sim, a hipótese de ter um trabalho recorrente com os mesmos intérpretes faz-nos crescer. A nós e a eles. Desde que nos permitamos manter caminhos próprios e singulares, para respirar. Foi o que me proporcionou o Ricardo Pais, no Teatro Nacional São João: a oportunidade de trabalhar com estabilidade. Durante três anos pude crescer com um grupo de pessoas que eu próprio escolhi e cuja constituição nuclear se foi mantendo, embora com algumas alterações.
Como escolheu os actores para o “Ricardo II”?
Alguns por convite, outros por audição. O João Ricardo vai fazer o Ricardo II, o Gonçalo Amorim vai ser Henrique.
Como é que faz a distribuição? Ao ler o texto, decide imediatamente quem vai fazer o quê?
Não. Decido durante o trabalho, durante as improvisações. Desta vez não foi bem assim, mas enganei-me.
Daquilo que foi dito atrás, devemos depreender que falhar não o assusta?
O trabalho criativo tem sempre um risco inerente, mas se não o tiver também não vale a pena fazê-lo. É a minha convicção. Falhar é a coisa mais importante do mundo. Permitir-se errar é fundamental para crescer. Quando não há essa latitude – e no trabalho teatral isso é-nos roubado porque há uma data de estreia – não vale a pena. É preciso acreditar numa coisa ao ponto de a perseguir até ao fim. Se errar, errei. Se calhar, depois não enceno nada durante dois ou três anos… Mas prefiro isso do que andar a enganar-me a mim mesmo.