ANNIE É UMA FIGURA INTERNACIONAL
A autora conta como nasceu o projecto para o espectáculo do Teatro Nacional D. Maria II, desde a hora zero. Desde o momento em que, há três anos, Carlos Fragateiro lhe passou para as mãos o livro de José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz
Entrevista conduzida por A. Ribeiro dos Santos
ARS – Lembra-se em que circunstâncias ouviu falar, pela primeira vez, do projecto que deu origem a este espectáculo?
Margarida Fonseca Santos – Há muito tempo. O Carlos Fragateiro manifestou desejo de levar à cena a história da Annie Silva Pais há três anos, sensivelmente... Eu, na altura, não conhecia o livro do José Pedro Castanheira e do Valdemar Cruz, embora tivesse lido a reportagem deles no ‘Expresso’. O Fragateiro emprestou-me o livro – que eu nunca lhe devolvi – e, para aí há um, talvez, chamou-me para discutirmos o projecto ao pormenor.
– Quando leu o livro, que impressão ele lhe deixou?
– Li o livro, antes de mais, para decidir se aceitava ou não fazer a adaptação cénica, mas depois devo confessar que me apaixonei completamente pela história e tornou-se-me evidente que iria aceitar.
– Pareceu-lhe que iria ser um trabalho complicado ou nem por isso? É fácil perceber-se isso numa primeira leitura? Pegar numa obra documental e pensar: isto é fácil de levar ao teatro?
– Esta história era muito fácil de adaptar porque é por demais apaixonante. Eu já tinha escrito outras peças históricas, que partiram de uma pesquisa de factos para a construção de um texto cénico, mas nenhuma foi tão fácil como esta. Aqui, a única dificuldade foi ter de optar por contar este pormenor e omitir o outro, pois a história de Annie é vastíssima e não pude, infelizmente, aproveitar todo o material de que dispunha. Há pormenores que nos dão a dimensão desta mulher incrível que era, ao mesmo tempo, de uma grande coragem e determinação, mas por outro uma pessoa ingénua, idealista e, finalmente, uma criança que fazia birras. Confesso que tive vontade de a mostrar a atirar-se para o chão e a fazer uma birra quando já era uma mulher casada…
– Com que ideia é que ficou de Annie enquanto mulher?
– Fiquei com a noção de que se tratava de uma pessoa incoerente, como todos nós. Aliás, todos nós somos ricos porque somos incoerentes, isso é evidente. Mas ela é muito especial: por um lado, toma uma decisão que muito poucos seriam capazes de tomar e é de um idealismo que até os próprios cubanos achavam excessivo; por outro no seu comportamento torna-se muitas vezes óbvio que vinha de um meio extremamente conservador. É impressionante pensar como numa só pessoa se juntam tantas coisas diferentes, que lhe dão quase uma dimensão ficcional. Annie parece uma personagem inventada: se alguém tivesse escrito um romance assim, as pessoas diriam que era inverosímil. E no entanto ela existiu e fez o que fez.
– Teve, desde início, a noção de estar a escrever para a Ana Brandão?
– As intuições do Carlos Fragateiro são interessantíssimas. Assim que me falou deste projecto, foi com a Ana Brandão no pensamento. Eu própria nunca vi a Annie com outro corpo… Pus o rosto dela na personagem, mas não penso ter escrito para ela. Tenho uma grande admiração pela Ana Brandão e quando a vi em cena uma das coisas que me comoveu foi ver até onde ela levou o texto, conseguindo passar, na mesma frase, de um ligeiro desprezo para uma raiva descontrolada, com vários matizes pelo meio.
– Como é que foi a sua relação como José Pedro Castanheira e com o Valdemar Cruz, os autores do livro?
– Só os conheci depois de ter aceite fazer a adaptação, e nessa altura já tinha algumas ideias sobre o que queria fazer com o material de que dispunha. Na primeira reunião, o José Pedro Castanheira disse-me logo que o processo lhe era estranho, que não fazia ideia de como se poderia fazer uma peça de teatro a partir do seu livro e que preferia que fosse o Valdemar Cruz a acompanhar o processo comigo. E assim foi. Só voltei a falar com o José Pedro Castanheira na fase final, quando estávamos em ensaios… O trabalho com o Valdemar Cruz processou-se sobretudo via mail… Ele sempre viu este livro em filme.
– Há uma frase na peça que é isso mesmo: “Annie, a tua vida dava um filme…”
– Exactamente. Foi propositado. A minha primeira preocupação, nesta transposição, foi a de que o espectáculo não contasse a vida da Annie por ordem cronológica. Dividi a peça em dois momentos e comecei a contá-los a par um do outro, e quando apresentei a proposta ao José Pedro Castanheira e ao Carlos Fragateiro, colocou-se-nos a questão: será que isso tem leitura no palco? Em cinema seria fácil, recorrendo a flashbacks, mas fazê-lo em teatro? Delineei as cenas e o Valdemar, ao receber o alinhamento, ia sugerindo a troca de uma cena por outra... Coisas de pormenor. O que eu queria, acima de tudo, era arrancar no momento em que Annie larga tudo, no aeroporto, ideia que agradou muito ao Valdemar. Ele disse-me que era o seu sonho: fazer uma espécie de anti-“Casablanca”. Sempre houve grande sintonia entre nós.
– Depois dessa cena, a acção volta para trás…
– Começamos a contar a história desde o momento em que Annie chega a Cuba e se deslumbra aquela vida, as crises com o marido e o culminar desse processo, quando ela se decide a partir. O momento em que toma a sua decisão e nunca mais volta para trás.
– Acha que Annie Silva Pais alguma vez se arrependeu?
– Não, nunca. Quando, depois do 25 de Abril, ela regressou a Portugal para visitar o pai à prisão, poderia ter ficado. Não, a Annie nunca vacilou em relação às suas opções, ela ela já não conseguiria largar Cuba. Era lá que estava o sonho, que tinha os seus amigos… Nunca mais se sentiu em casa em Portugal.
– O final do espectáculo acontece num baile… que é simbólico. Aquela última dança é, também, a morte.
– Aí, nada fiz: foi uma solução brilhante da encenadora, Helena Pimenta. O texto termina com o baile em que Annie conhece Che Guevara. É o momento em que a cabeça dela muda, em que fica desassossegada e começa a pôr tudo em causa. Repare-se que, mais do que abraçar a revolução, Annie abraçou uma vida em que a sua contribuição era importante, em que ela fazia algo de útil para os outros.
– Quantas versões fez da peça, até à versão final?
– Várias, mas com alterações de fundo foram quatro. Escrevi sempre sozinha, enviando depois as versões para o Valdemar, para que me desse o seu aval em termos documentais. Ele limpou algumas imprecisões que pudesse haver, porque obviamente eu não tinha como saber tudo aquilo que eles investigaram.
– Houve algum momento em que tivessem discordado?
– (risos) O Valdemar achava que os conflitos entre Annie e a mãe eram excessivos. Eu ri-me, porque é mesmo um homem a falar. As mulheres sabem que mães e filhas é sinónimo de conflito permanente. Ninguém põe em dúvida o amor que se tem por uma mãe, mas é assim. Acabei por deixar como estava.
– Quando é que a Helena Pimenta entrou em campo?
– Eu e o Valdemar fomos a Madrid com a versão semi-final da peça debaixo do braço. Foi muito interessante falar com a Helena, que pôs imediatamente à vontade: o que ela dizia acerca da peça encaixava com a minha própria visão do projecto. Depois, pôs-me algumas questões pertinentes: perguntou-me, por exemplo, se eu achava que Annie é um símbolo para Portugal. Eu, sinceramente, acho que não. Acho que Annie é uma figura internacional e que a sua história é universal.
– Como reagiu quando viu o espectáculo?
– Com enorme comoção. Chorei logo nas primeiras quatro cenas. Quando se escreve uma peça – e agora os encenadores não querem didascálias – não há forma de saber se as frases que escrevemos vão ser bem ou mal interpretadas. Quando ouvi o texto, respeitado na íntegra, dito daquela forma magnífica, com a emoção certa em cada linha… Depois, achei o cenário esmagador e o desenho de luzes impressionante. Fiquei apaixonada a ouvir a história que eu própria tinha escrito, o que revela que o trabalho está muito bem feito.
– Não conhecia a Helena Pimenta?
– Não, mas acho-a extraordinária. Não sei como correram os ensaios mas só posso imaginar que o ambiente tenha sido muito saudável. E o facto da história se perceber tão bem também é mérito da encenação: só um bom encenador podia fazer aquilo de forma tão simples, pelo menos aparentemente. Quando vi o espectáculo pela primeira vez, fiquei com uma imensa sensação de gratidão.
– Já escreveu outras peças históricas, casos de “O Navio dos Rebeldes”, no Teatro da Trindade, ou de “António, Bispo do Porto’, que escreveu para a Seiva Trupe…
– Também escrevi outra, que deverá ser posta em cena brevemente, e que nos conta a travessia do Gago Coutinho e do Sacadura Cabral. É uma história surpreendente, de que só conhecemos a rama, mas que tem pormenores fascinantes. O que vulgarmente se pensa é que os dois se meteram num aviãozinho, tiveram um problema, mudaram de avião e chegaram ao Brasil. Ora não é isso que se passou. Os dois homens estiveram perdidos no mar durante muito tempo, ao ponto de contemplarem o suicídio…
– Gosta de escrever peças de temática histórica? Não lhe parece assustador, pegar numa história verídica e passá-la à cena?
– Pareceu-me assustador da primeira vez que o fiz, mas ao fim de três experiências diferentes, a nossa visão muda. Tenho vindo a aprender que quando se trabalham temas históricos se pode trabalhar de formas muito distintas. Com “O Navio dos Rebeldes”, por exemplo, uma encomenda do Teatro da Trindade, entrevistei muitas das pessoas que participaram na Crise Estudantil de 62 e apercebi-me de que cada uma tinha uma versão diferente dos acontecimentos. O que tornou impossível desenhar as personagens a partir de pessoas reais...
– No caso da história do Bispo do Porto…
– Uma encomenda da Seiva Trupe. D. António era uma figura interessantíssima: um filósofo, um homem culto que sabia tudo sobre tudo. Dizia que um dia em que não lia era um dia perdido e passava dias inteiros a estudar. Estava sempre actualizado sobre todos os assuntos. A personagem era, por isso mesmo, assustadora. Não podia pô-lo a abrir a boca e a dizer qualquer disparate... Usei, portanto, as homilias que ele escreveu e a única dificuldade, nesse campo, foi escolher entre tantos textos brilhantes. Depois, ao falar com ex-alunos, fiquei com uma ideia do que seria o lado humano daquele homem que se revoltou contra Salazar. Aliás, o navio dos rebeldes, o bispo rebelde e a filha rebelde… Se se pensar um pouco, só tenho escrito sobre rebeldia. Eu, que sou tão pacata…
– Gosta de trabalhar sobre a História?
– Gosto muito. As minhas peças que têm ido à cena são textos inspirados na História e encomendados por alguém. Acho, sobretudo, engraçado tentar passar uma história verídica de forma apetecível e que dê curiosidade às pessoas para estudar mais, para aprofundar os temas. Não quero correr o risco de ser demasiado exaustiva e de não deixar espaço à curiosidade alheia.
– Acha que em Portugal há apetência por esse tipo de temática?
– Não sei. Não tenho dados para responder a isso. Se calhar saber que a história é verídica atrai mais o público… Não sei. Estou a falar de cor.