O acaso marcou-lhes encontro com a história de Annie Silva Pais. Nesse momento, os jornalistas José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz perceberam que estavam perante um tema sensacional. Dedicaram-lhe três anos e desse mergulho no passado nasceu aquele que é um dos melhores trabalhos jornalísticos da última década
Entrevista de Margarida Gil dos Reis
Como tomaram contacto com a história de Annie Silva Pais?
José Pedro Castanheira – A primeira vez que ouvimos falar desta história foi numa entrevista com o embaixador Gonzaga Ferreira, feita em colaboração com a jornalista Luísa Meireles para a revista do Expresso, em Agosto de 1999. Foi uma entrevista de carácter biográfico. Ora acontece que Gonzaga Ferreira estava em Havana, na qualidade de embaixador de Portugal, precisamente na altura em que a filha do major Silva Pais decidiu romper com o passado e abraçar de alma e coração a revolução cubana, na altura ainda numa fase mais ou menos utópica. O embaixador e a esposa acompanharam de perto todo o drama de Annie – e disso nos deu conta na referida entrevista. No fim da entrevista, ao sairmos da casa do embaixador, percebemos logo que estava ali uma história absolutamente sensacional.
De que se alimenta, na vossa opinião, o jornalismo de investigação?
JPC – Importa precisar que não há apenas uma modalidade de jornalismo de investigação. Aquele a que mais nos temos dedicado é o jornalismo de investigação de carácter histórico. E tem a ver com episódios recentes da nossa história e que, por variadas razões, ou nunca foram revelados, ou foram-no de forma muito parcelar. A história da Annie é daquelas que nunca tinha sido contada. E só foi possível reconstitui-la porque, felizmente, ainda havia pessoas vivas que se dispuseram a partilhar as suas vivências e memórias com os jornalistas. Além disso, tivemos acesso a vários e valiosos arquivos. Alguns deles, oficiais, como os arquivos Salazar, PIDE/DGS, do Ministério dos Negócios Estrangeiros e até o Arquivo Histórico-Militar. Tivemos ainda a enorme sorte de nos ter sido facultado o arquivo dos familiares de Annie, com destaque especial para o diário de sua mãe, Armanda Silva Pais, que é, a todos os títulos, um documento excepcional.
VC – Valerá a pena acrescentar, no entanto, que o jornalismo de investigação, seja de carácter histórico ou mais centrado em questões de actualidade, terá de se alimentar, antes de mais, da curiosidade do jornalista e da sua capacidade de questionar permanentemente os factos. É essa disponibilidade para ir sempre um pouco mais além que tem contribuído para algumas das mais gloriosas páginas do jornalismo de investigação, em Portugal ou em qualquer parte do mundo.
Qual é a responsabilidade do jornalista na preservação da memória?
JPC – É uma responsabilidade de certa forma dividida com os historiadores. Cabe-lhes contribuir para que a opinião pública tenha um conhecimento mais completo possível do que foi realmente a nossa história colectiva. Uma História com H grande, que também é composta por uma sucessão de histórias com h pequeno. E é nessa histórias mais pequenas que entra o jornalista, enquanto, se quiser, especialista da chamada história oral. Sabe-se que há uma corrente historiográfica que desconfia e até despreza a história oral. Ora a verdade é que a história não se faz apenas com documentos. Faz-se também com recordações, memórias, autobiografias, sentimentos. E importa recuperar e preservar essas memórias pessoais enquanto as pessoas ainda estão em condições. Sem a memória individual de muita gente que entrevistámos – em Portugal, na Suiça, Cuba, México, EUA... – esta história da Annie teria sido quase impossível de escrever.
Esta foi uma história que se prolongou por três anos, com várias viagens pelo meio. De todos os testemunhos que recolheram, qual foi a pessoa que mais vos surpreendeu? Porquê?
VC – Infelizmente já não fomos a tempo de recolher o testemunho nem da mãe nem da filha, que são talvez as grandes figuras desta história. Annie morrera na madrugada de 13 de Julho de 1990, vítima de doença incurável. Tinha apenas 54 anos. A mãe morreu com 89 anos, apenas umas semanas antes de termos decido contactá-la.
JPC – A Annie era uma força da natureza, com uma coragem assombrosa, que a levou a ser capaz de mudar de vida – em todos os aspectos. Neste sentido, ela foi capaz de fazer aquilo que quase todos nós ambicionámos, ou sonhámos, ou desejámos fazer pelo menos uma vez na vida – sem termos tido a força interior, a coragem, a ousadia, a determinação que isso requer.
VC – Das pessoas que ainda fomos encontrar vivas e nos ajudaram a erguer esta história, talvez a mais surpreendente de todas tenha sido a costureira Melly Lopez. É uma fascinante personagem de romance. Ela própria era um poço de histórias.
Uma das dificuldades que referem no vosso trabalho foi a ausência de resposta do governo cubano sobre uma possível acreditação. Como procederam a partir desse momento?
VC – Quando nos recebeu na embaixada, o então embaixador de Cuba em Portugal mostrou todo o entusiasmo por esta história, que ele próprio desconhecia. Porém, como tardava em ser dado qualquer seguimento à colaboração que nos fora prometida, decidimos avançar para Havana com um simples visto de turista. Era uma situação complexa, já que, por princípio, nenhum jornalista pode trabalhar em Cuba sem possuir a respectiva acreditação. Decidimos arriscar. Foi uma decisão acertada, porque conseguimos falar com todas as pessoas sem qualquer problema. O curioso é que era impossível que as autoridades cubanas não soubessem que estávamos lá a fazer este trabalho, sobretudo porque muitos dos entrevistados pertenciam a organismos oficiais para os quais Annie trabalhou. Perante isto ficará sempre a dúvida sobre o porquê daquela ausência de resposta.
Na vossa opinião, Annie encanta-se pelo ícone que era Che Guevara ou pela mudança de valores que a revolução simbolizava?
VC – Annie era uma mulher apaixonada e porventura excessiva em todas as suas paixões. Claramente teve uma paixão pelo Che, como tantas e tantas mulheres tiveram e porventura ainda têm hoje. A entrega à Revolução é um corte radical com todo o seu passado, mas é, também, a forma de mudar de vida. É o fim do casamento, é o fim daquela existência acomodada e protegida pela embaixada Suíça, é a noção de partida para um mundo novo.
Como chegaram ao título deste livro?
Quatro anos depois, essa pergunta quase parece não fazer sentido. É como se o título se tivesse imposto, por si só, com toda a naturalidade, desde o início. Já é difícil imaginar este livro com um título diferente...
Como é que a atitude de Annie foi vista aos olhos do poder, em Portugal?
VC – A situação preocupou o poder em Portugal e mereceu a atenção dos norte-americanos. Os agentes da CIA em Havana exerceram fortes pressões sobre vários diplomatas, nomeadamente sobre o embaixador Gonzaga Ferreira, a quem de alguma forma acusavam de também ter responsabilidades nesta «deserção» de Annie. O caso foi tratado com toda a delicadeza, tanto mais que Annie vivia na embaixada da Suíça, que representava os interesses americanos. O seu então marido era o responsável por todas as transmissões secretas de e para a embaixada, pelo que havia o receio de que ela pudesse ter fugido com muitos segredos diplomáticos. Do ponto de vista português, e face ao eclodir da guerra colonial, havia ainda o receio de que o caso de Annie pudesse ser utilizado numa acção de propaganda contra o regime ditatorial de Salazar no âmbito da Conferência Tricontinental, que se realizava em Havana em Janeiro de 1966.
Qual é a importância desta história de vida, no contexto da História do Século XX?
VC – Um dos aspectos relevantes desta história poderá ser o facto de nos mostrar uma vez mais que, felizmente para todos nós, a vida não é um percurso linear, feito de etapas previamente estabelecidas. Nada na vida de Annie indicava que poderia vir a fazer o que fez. Filha única do responsável pela polícia política de Salazar, educada no seio da burguesia lisboeta, casada com um diplomata suíço, beneficiária de todas as mordomias da vivência numa embaixada e, mesmo assim, um dia há algo que a faz largar todo o conforto, todas as certezas, todo o mundo adquirido, para partir para algo de absolutamente incerto, indefinido e invulgar. Não é relevante saber se concordamos ou não com as opções dela. O que é importante é perceber que é a partir de gente como Annie que o mundo em vez de se transformar num lago de águas estagnadas, é um constante fervilhar de ideias e mudanças.
No fim da vossa apresentação referem que esta é “uma vida que dava um filme”. Agora que vai ser adaptada a teatro, quais são as vossas expectativas em relação e este projecto?
JPC – O facto do nosso livro ter sido adaptado ao teatro só vem confirmar que daria um excelente filme. Porque a verdade é que adaptar uma história destas ao teatro é seguramente muito mais difícil do que transpô-la para o ecrã. E não somos só nós que o pensamos. Até já fomos abordados por mais que um produtor e realizador. Não ignoramos que não é um projecto barato. Mas se a história de Annie já foi um sucesso nos jornais e nas livrarias, e se tudo aponta para que o seja no teatro, porque razão não o será no cinema? Lamento ter de dizê-lo, mas se esta história se tivesse passado num outro país, certamente que já teria sido transposto para o cinema. Mas infelizmente é o país que somos.